top of page

#14 - O que o plano de governo tem a ver com a sua vida?

23 de out.
4 min de leitura

Muito do que um presidente promete depende do Congresso, dos estados e de anos de execução. Mas algumas áreas respondem antes disso, e é nelas que vale prestar atenção antes de entrar na cabine de votação amanhã.

No domingo você vai às urnas de novo. Mas desta vez com uma diferença: você já sabe quem são os dois candidatos, já ouviu os debates, já viu as promessas. A pergunta que fica é outra. Dessas promessas, quais de fato chegam até você?

Não é uma pergunta simples. O Brasil é uma federação. O presidente governa em parceria obrigatória com 27 governadores, 5.570 prefeitos e um Congresso que pode barrar qualquer projeto. Então quando alguém promete mudar a educação, a segurança ou a economia, a pergunta certa não é “ele vai fazer?” mas sim “o que depende dele e o que depende de outros?”

A economia responde primeiro. Por quê?

Como vimos na newsletter da semana passada, a expectativa do mercado sobre a disciplina fiscal de um governo age sobre os juros antes mesmo de qualquer medida ser implementada. Isso não é teoria. É o mecanismo pelo qual uma eleição afeta o valor da sua parcela, do seu crédito e do retorno dos seus investimentos antes da posse.

O Relatório Focus do Banco Central, publicado toda semana, mostra a projeção de inflação e juros para os próximos anos. Esse número se move conforme o mercado lê o plano econômico do candidato eleito. Um governo percebido como fiscalmente responsável tende a ver as projeções de inflação caírem. Um governo percebido como gastador vê o oposto.

Para o cidadão comum, isso se traduz em: um ponto percentual a mais ou a menos na taxa de juros pode representar centenas de reais por mês em um financiamento de longo prazo. A economia é a área onde o presidente tem mais impacto direto e mais rápido.

Segurança pública é estadual, mas o presidente importa

A polícia civil, a militar, os presídios e a gestão do dia a dia da segurança pública são responsabilidade do governador. O presidente não manda na PM do seu estado. Isso é constitucional.

Mas o governo federal controla o Ministério da Justiça, define o orçamento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, coordena operações integradas entre estados e estabelece políticas nacionais de segurança. Mais do que isso, um presidente que lidera com uma visão clara e um plano integrado de combate à criminalidade cria o ambiente para que governadores se alinhem e cooperem. Um que governa na fragmentação deixa cada estado por si.

O histórico importa aqui. Nos últimos 20 anos, os estados que mais reduziram seus índices de violência foram os que combinaram gestão estadual eficiente com apoio federal em inteligência e recursos. Nenhum fez isso sozinho. (Fonte: Atlas da Violência, IPEA e FBSP, edições 2018 a 2024)

Educação: o presidente não entra na sala de aula, mas define o caminho

A rede pública de ensino fundamental e médio é majoritariamente estadual e municipal. O presidente não decide o que o professor vai ensinar amanhã na escola do seu filho.

Mas ele define as diretrizes nacionais de educação, o financiamento do FUNDEB, os objetivos do ENEM, a formação de professores e os programas federais que chegam às escolas. Uma visão clara no plano de governo do presidente cria o norte que estados e municípios seguem ou ignoram. A Base Nacional Curricular Comum, por exemplo, foi uma decisão federal que reorganizou o ensino em todo o país.

O impacto na educação é lento. Políticas de hoje aparecem nos dados do PISA e do IDEB daqui a cinco ou dez anos. É o investimento de mais longo prazo que um governo faz, e o mais difícil de avaliar no calor do mandato.

O que acompanhar depois do domingo

Votar é o início, não o fim. O cidadão que quer entender se as promessas estão sendo cumpridas tem ferramentas gratuitas e acessíveis para isso.

O Portal da Transparência (portaltransparencia.gov.br) mostra como o dinheiro público está sendo gasto em tempo real. O site da Câmara dos Deputados (camara.leg.br) registra quais projetos estão avançando e quais estão parados. O Relatório Focus do Banco Central (bcb.gov.br/publicacoes/focus) mostra toda semana o que o mercado espera do rumo econômico. O Atlas da Violência (ipea.gov.br) acompanha os índices de segurança por estado e município ao longo dos anos.

Esses quatro termômetros, consultados periodicamente, transformam o eleitor de espectador em observador ativo. E é esse observador que, no longo prazo, pressiona por melhores políticas públicas, independente de quem esteja no poder.

Em resumo

O presidente não resolve tudo, mas tampouco é irrelevante. Economia, segurança e educação respondem ao governo federal de formas distintas e em velocidades diferentes. Entender qual área depende de quê é o que separa o voto emocional do voto consciente.

Amanhã você tem mais uma oportunidade de exercer isso. Não de torcer por um lado, mas de escolher com clareza o que você acredita que vai chegar mais perto da sua vida.

Se esse texto foi útil, compartilha com alguém que vai votar amanhã.

Me segue no Instagram para acompanhar mais conteúdo como esse: @dudumeyer

Até semana que vem.

Fontes: Atlas da Violência, IPEA e FBSP: ipea.gov.br/atlasviolencia Portal da Transparência: portaltransparencia.gov.br Câmara dos Deputados: camara.leg.br Relatório Focus, Banco Central: bcb.gov.br/publicacoes/focus

 
 
 

Comentários


bottom of page